29 de mar de 2009

Finalmente nasce Abel


Sem mais e sem menos

–Adão, me socorre aqui, aiiiii! Ai! Aiiiiii! Acorda! Aiiieeii! Uuuufff! Acordaaaaa! –Que está havendo Eva, algum bicho te mordeu? –Está tudo escuro, não vejo nada. Acende a luz! –Que luz? –A da fogueira, ué, aiiiii! Andaaaa! –Minha nossa, espera aí que vou colocar mais lenha. –Agora sim, com o fogo aumentado me sinto mais tranquila, aaaaaaaaaaaaaiiii! Dá uma olhada nas minhas coxas, nas minhas partes, eu acho que vai sair... –Sair o quê, outra vez, Eva? –Adão, seu atolado, esqueceu que tem um cainzinho que está para ser cuspido... vem para cá, fica comigo, me dá as mãos, me segura. Não! Me levanta aqui, tenho que ficar agachada, de cócoras! A cuspida vai ser mais fácil, eu sinto que está descendo mais rápido que o Caim, e ainda assim dói, dói menos, parece, respiro melhor, porque prá baixo todo santo ajuda. –Que santo é este que não sei, não estou vendo ninguém aqui, não conheço, você fala cada uma. –Maneira de dizer, isto é, ainda vai ser inventada, mas eu já começo a usar, aaiiiiiiiiii, uiiiii! –Você tem pegar o cainzinho. –Eu? –É! Não! Peraí, bota a mão não, deixa que ele vai saindo lentamente, vai encostar a cabeça na palha! Preciso que vc me segure, me dê apoio, porque se eu cair de costas vai ser uma barra, ele vai ser espirrado muito rápido e se cair de frente eu amasso ele. –Tá! Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come, oh vida, oh céus, viu, estou falando meio estranho igual a você –Vai se acostumando Adão que tempos duros virão pela frente, aaiiiiiiii! Uiiiiii! Tá descendo, Adão, está saindo. Virgem, não dá nem para olhar, este barrigão tapa tudo. Pronto! Escapuliu todo, que alívio! Agora me solta e me ajuda a sentar devagar que aquela coisa que saiu depois no outro parto vai sair também agora. Estou sentindo as contrações, viu, não falei? Da outra vez pensei que fosse uma bolota, mas agora dá para ver que é redonda e chata. –Temos que dar um nome a isto, porque pelo visto vai ter um filhote atrás do outro. –É verdade, Adão! Pensando bem, por parecer um bolo chato que em grego é, placous, vamos adiantar a modernidade e chegar ao hoje, aqui e agora. Chegamos ao nome placenta e pronto! Placenta! Tenho que cortar este cordão que liga ao cainzinho, vou meter os dentes e fazer como da outra vez. –Não tem um jeito mais avançado, mais moderno de fazer isso, Eva? –Tem... morde você! –Tá louca? Onde já se viu uma coisa destas? Morder coisa de mulher, isto é uma nojeira, morro, mas não boto minha boca nisto aí. –Tá bem, deixa isto comigo! Pronto, não sou uma coitadinha da silva! E tem mais, vi muitas fêmeas de animais, incluindo macacas, comendo estas placentas, acho que é porque são muito nutritivas e dá forças para a mãe nutrir o filhote e não vou ficar atrás, vou comer esta placenta. –Faça isto não Eva! –Me dá isto... dá aí! Não! Espera um pouco, antes deixa eu lamber este menino, ele tem que ficar limpinho se não vai se encher de formigas. –Cruzes, Eva! Está demais para o meu estômago. Dá licença que vou vomitar ali! “–Bicho fraco este tal de bicho homem! Fazer o quê? Acho que por sido feito de barro há uma certa fragilidade nele para com estas coisas corporais, e eu por ter vindo do corpo dele, de seu osso e músculos, sem passar pela fragilidade do barro, estou mais calejada. Ele passou muito tempo a dormir e comer frutas, ter sombra e água fresca; disto tive pouco, fomos logo expulsos do paraíso; fui logo para o batente e acabo sendo mais forte, afinal sou fruto de uma cirurgia para ninguém botar defeito, sou bela, melhor acabada, refinada que ele e ainda capaz de enfrentar estes entraves. Mãos à obra que a placenta deve estar quentinha ainda! –Crau! Arghhhhhhhhh, que coisa ruim! Acho que fui feita para cortar o cordão umbilical e só, e olhe lá, enquanto está tudo no frigir dos ovos, ainda quente. Esfriada ficou com um gosto nauseabundo, começa a virar carniça, isto é ofício só para as macacas e outros que cachorros e hienas comam o que saiu de você. Afinal não vamos alimentar estes bichos com carnes do seu corpo não é verdade? –Concordo meu Adão querido e idolatrado. Começamos assim o costume de enterrar nossos mortos. –Tudo muito bem, Eva! Enterrei um seu pedaço ou o pedaço dele, saber de quem fica para depois e agora pergunto, vínhamos falando estas luas todas que ia nascer um cainzinho. Era cainzinho prá lá e prá cá. Mas este vai ter que ter um nome diferente para quando ele estiver falando e entendendo as coisas, e quando um nós chamar por Caim não termos os dois respondendo ao mesmo tempo. –Adão, não sei se você vai compreender, mas a mulher será dotada de intuição, que é uma sutil capacidade de adivinhar certas coisas; como primeira mulher já sou assim, algo me diz que este menino terá vida curta, será vítima de alguma maldade, não sei de quem. A palavra abel significa vapor ou fôlego, duas coisas de tempo curto de vida, de pouca duração. Mesmo assim, e como todos nós entraremos para a história, que seu nome seja Abel. –Assim seja Evita!
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12 de mar de 2009

Isto é o amor?

Sem mais e nem menos

–Adão , estou com um problema sério! –Pode dizer Eva, sou todo ouvidos. –Você tem todos os ouvidos? Como assim? –Querida, é uma maneira de dizer que criei agora, faz parte do criacionismo. Desculpa de vez em quando eu estar te confundindo, acho que estou arriscado a ser eternamente assim. –É, penso que serei o contrário Adão, os oráculos dizem que mesmo romântica serei mais objetiva. –Oráculos, o que é isto? –Te peguei, é uma invenção minha para predizer o futuro com a precisão de uma máquina de calcular. Calcular o dinheiro que se pode ganhar vendendo ilusões acerca do porvir de qualquer pessoa. –Tudo bem, Bem! Que história é essa de ser romântica? Tem a ver com dinheiro? Queria entender! –Você nunca vai entender que o romantismo é uma vivência especial em que uma pessoa vive um pouco acima da realidade, anda pela poesia, gosta de fantasias, se acha acima do bem e do mal, é uma criatura heróica que quer o mundo em rosa e azul, lírico, piegas, musical. E importante, é tudo fundamentado no amor, um sentimento que não nasceu com a gente, que aparece com o tempo. Veja que você não teve mãe, não foi parido, não mamou, não usou fraldas, não aprendeu a falar, não sabe o que é uma creche, jardim de infância, não teve infância nem adolescência; quem te amou para você entender? Nasceu pronto e acabado, de cabeça oca como eu. –Pérai, como sabe tudo isto? –Está escrito nas entrelinhas! –Tudo bem, e este tal de amor? –Ah, sim, o amor veio surgindo depois que descobrimos, eu e as minhas descendentes, com a sua ajuda, é claro, que filhote não vem de pedras achadas a esmo, que vem de dentro do corpo das aves, como aquela que você testemunhou. Elas cospem o ovo, dão comida ao filhote e depois é cada um por si. Sei que há uma diferença comigo. Assim como os mamíferos que botam a cria para fora envolvida naquele saco, o mesmo aconteceu “ni mim”. –É verdade Eva! –Adão, sem a casca o filhote saiu incompleto, não sabia comer e beber sozinho, dependeu de mim e de você para sobreviver, mais de mim por causa do leite. –É, mas quem traz comida para você sou eu que fiz roça, mato animais e ainda trago frutas... –Mas quem cozinha sou eu que esquento a barriga no fogão, digo na beira da fogueira, com o Caim agarrado nas minhas pernas, cheio de poeira no corpo e arranhando a minha pele. É aí que quero chegar. Tudo isto que passo com ele não me sobe mais à cabeça, sinto-me feliz por estar compartilhando com seu crescimento e o fato de estar carregando na barriga um outro cainzinho me deixa mais eufórica, radiante, não caibo mais em mim de tanta satisfação. Isto é o amor! Estou radiante por saber que depende só de mim botar mais um filho no mundo. Entendeu? –Sim entendi, apesar deste tal de amor não estar em na minha cabeça e muito feliz porque de mim não sai estas crias. Basta a trabalheira para comer e dar de comer com o suor do meu corpo. –E você acha que carregar o peso na barriga não cansa? Com Caim, eu não sabia de nada. Agora sei que tem gente aqui, cada dia fica maior, mais pesado e além disto ainda tem umas pancadas que dá lá dentro que não sei se é cabeçada, soco ou ponta pé. Mas suporto tudo isto em nome do amor, viu? diria a Loba. Com a experiência do outro agora posso ficar tranquila, primeiro porque sei que não é caca, bexiga cheia ou um tumor. Trata-se do meu filho, meu futuro adorado filho que vai me dar muitas alegrias como Caim. Importante, Caim está com treze luas de idade (364 dias), andando sozinho igual a gente, comendo comida da mata, bichinhos e frutas caídas. E chama você de Dam, eu de Va, pede uva, pêla, aga, mamá, mé, omiga, balata e mais um monte de coisas. Tudo que ensinei pois você passa o dia inteiro longe. Outro dia ele pegou uma rata deu uma mordida no rabo dela e a bicha não é que mordeu também o narizinho dele? Xiii, soltou o bicho, gritou feito um desesperado. Me descabelei, você longe, viva alma por aqui. Quase o levei ao pronto socorro. Desespero, não é? Caiu a ficha e vi que não tem nada disto ainda. Pô, não vejo a hora de você se aposentar. Mas primeiro vai ter que se mexer para se “encostar no INSS” e arranjar uns trocados. É pouco mas ajudará muito. Aí, com você desempregado, pode fazer uns bicos... com a falta de estrutura do governo na vigilância eu me matriculo no Bolsa Família. Já imaginou cara?