11 de jan de 2009

Nem mais e nem menos

No mato de sem cachorro
-Adão, estamos no mato sem cachorro! -O jeito é arranjar um com algum amigo ou comprar numa petshop. –Falo grosso modo, é um provérbio meu caro. Quero dizer que estamos sós, sem casa, perdemos as frutas do Paraíso, sem alguém para ajudar, sogros e pais, somos sem terra e sem teto. Como entrar no MST? Reforma agrária, nem pensar, está a milênios da gente. Você tem que se virar, no início de civilização é o homem que vai dar duro, nos dois sentidos, para sustentar a família. Esqueceu da reprimenda no despejo? -Não me esqueci, e estou por aqui com você, afinal, se não fosse pela sua desobediência, estaríamos no bem bom, desfrutando as delícias que tínhamos. –Eu não tive culpa de coisa alguma, a responsável pela nossa desdita foi a serpente, aquela sem vergonha, asquerosa, mentirosa, traiçoeira... –Desdita, o que é isto? -Vá para o inferno! Não vá, ele é aqui mesmo, trata de pegar uma enxada e escolher um lugar para fazer uma roça, plantar para colher. –Plantar o quê? -Sei lá, não tenho a mínima idéia. –Vamos nos matricular no Bolsa Família! Lá tem cesta básica; eu sei que é pouco, mas vamos aguentando até chegar à colheita; você pode plantar trigo e com ele farei pães, bolinhos, pizzas... Com cevada, a cerveja. Vamos colher mel de abelhas, tâmaras, maná, e assim melhoraremos o padrão da cesta básica. Vou te contar, o que tem de pior vem nela. –Pô, minha cara! Já está esnobando, se continuar assim ninguém te aguentará, suas amigas vão querer distância de você. –Não haverá distância, não há amigas, existimos nós, e por falar nisso está na hora de você me conhecer. E não te conheço? Fomos apresentados pelo oleiro-carpinteiro-marceneiro-neuro-linguista, há poucas semanas. –Minha nossa, não estou falando de apresentação, isto é coisa do passado, falo... falo, como vou dizer, fazer amor, ou se quiser mais diretamente, é transar. –O que é transar, fazer amor? –Minha nossa, vou passar a vida inteira te dando instruções, guiando, exigindo, adulando, vê se te manca, cara. –Tudo bem, mas pode ser mais gentil, insinuante, fazer beicinho, um olhar provocador? Tudo é novo, reconheço. –Cara, você tem um irmão, um tio, um amigo, algum concorrente? Não! Então és tu mesmo. Não vai me conhecer aqui à luz do dia nem esperar chegar a noite. Vamos para aquela caverna.............................................................................................................................................. -Foi bom para você, Adão? - Não sei, só se repetir para poder comparar. -Você foi muito desajeitado, não soube como começar, não me um beijo sequer, tentei lhe beijar e só via você dando tapas em si mesmo. Que tara! –Tara nada, picada de mosquito é mole? Na posição que fiquei recebi os carapanãs e até o mosquito da dengue. Aquilo que raspou da sua barriga não era caraca, eram mosquitos que morreram imprensados no pega para capar............................................................................................................................................. -Adão, há vários dias que me sinto enjoada, ando com muita fome, sinto uma vontade louca de chupar sorvete de chocolate, quero que você saia para buscar para mim. -A esta hora da noite? Que coisa é essa? Isto não existe! –Não me interessa se existe ou não, quero e pronto! Estou com desejo e você não pode me contrariar, se não alguma coisa me diz que vai dar tudo errado. –Gente, que maluquice é esta? O que pode dar errado neste fim de mundo? –Sei não, mas que vai dar errado vai. Quem me diz é minha intuição. –Sua o quê? Intuição? –Deixa pra lá, vai, vai quero o sorvete. –Não vou buscar nada! Se vira...................................................................................................................................................... -Eva, você está comendo demais, sua barriga cresceu muito nestas oito luas, haja filhotes de macaco, passarinhos, ovos, nada te escapa da boca, até para mim começa a faltar comida. - Não fala, estou sentindo umas dores esquisitas, vou botar tudo para fora agora. Vou fazer cocô, tenho que ficar de cócoras, nossa, é muita dor, chamam isto de contração, Mas ao mesmo tempo é uma vontade enorme de fazer um xixizão... ui, ai, ai, ui, uau. Parece um terremoto, o mundo vai acabar, vou desabar, estou vendo tudo preto, ai, ai ui, ui, ai, me segura, ai, ui, não... chega para lá, sai daí... aiiiiiiiiiiiii... -Minha nossa... o que é isto? Não é nada do que você falou. É outra coisa! -Prestenção, isto é uma cria como outra qualquer. Ei, ele está ficando roxo e não falou nada ainda... está amarrado com esta tripa. Me ajuda, dá aqui, tenho que cortar o cordão com os dentes. –Você não pode fazer isto! –Como não posso? O instinto está mandando! Pronto! -Buaaaaaaaaa... -Que legal, ele fala! -Falando nada, está chorando! -Este é o nosso filho. –Meu não, é só seu, saiu de você. Quando sair um de mim, aí será meu filho. –Tá bem! Um dia você vai parir! Vamos ver! Bem ele precisa de um nome. Nisto um cão que havia levado uma pedrada por tentar comer a placenta saiu ganindo: -Caim, caim, caim...

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